09/02/2018

Livro: Todos contra todos - O ódio nosso de cada dia / Leandro Karnal #resenha

“As crianças contemporâneas (especialmente as que têm mais de 50 anos como eu) batem o pé, fazem beicinho, mandam mensagem no WhatsApp e argumentam. Mas, como toda criança, não ouvimos ninguém. Ou melhor, ouvimos desde que o outro concorde comigo; então ele é sábio e equilibrado.” p.13




Título do Livro: Todos contra todos – O ódio nosso de cada dia
Autor: Leandro Karnal
Editora: LeYa
Ano: 2017
Páginas: 143
Assuntos: Aspectos sociais; discriminação; preconceito e antipatia.


          A prática da leitura além de promover o entretenimento, permite a identificação e organização dos sentimentos, pensamentos e ideias. Foi o que esse livro me proporcionou.
         Karnal utiliza uma linguagem de fácil interpretação, trazendo concepções bem-humoradas, reflexivas, conflitantes e, por ser historiador e professor, também é bastante didático.  
         O historiador discursa sobre nossas pequenas maldades diárias, fala de Freud e psicanálise, apresenta contextos ao longo da história, fala de política e diz que o Brasil é um país sem grandes catástrofes naturais como os terremotos, tsunamis, vulcões e que por muitos anos reforçamos nossa imagem de um povo amistoso; que historicamente ocultamos o termo “guerra” de nossa história, mas elas aconteceram e foram bastante sangrentas, e, por termos horror ao termo, os livros de história, o amenizam chamando vários massacres e conflitos de “revolta”.
         O fato de sermos um povo hospitaleiro e alegre, não quer dizer que não tenhamos uma face violenta a qual tentamos a todo custo, ocultar sem sucesso algum.
         Os dados sobre a realidade do trânsito são assustadores. De acordo com Karnal, segundo o Observatório Nacional, o trânsito no Brasil faz certa de 40 mil vítimas por ano (dados atualizados, mostram que esse número cresceu consideravelmente).

“Somos um país violento. Violentos ao dirigir, violentos nas ruas, violentos nos comentários e fofocas, violentos ao torcer por nosso time, violentos ao votar.” p.10

         Karnal ressalta que o ódio surge principalmente quando nos sentimos ameaçados, quando o sucesso do outro traz à tona nosso fracasso, ou quando não concordam conosco, ou seja, é mais fácil rotular o outro de machista, esquerdista, feminazi, burro ou outro rótulo qualquer, do que dialogar argumentando. Se alguém não concorda conosco, lhes fechamos a porta de qualquer diálogo. Sem contar que terceirizamos nossas responsabilidades e falhas. A culpa é sempre do outro, nunca nossa.
         Todo o contexto que Karnal oferece para fundamentar suas ideias é bastante elucidativo. Ele recheia o livro de preciosas referências literárias como Memórias de um sargento de milícias, Casa grande & Senzala, O tempo e o vento, 1984, Raízes do Brasil, entre muitos outros.
         O que compreendi ser a maior lição contida no livro é a importância de reconhecer o quanto podemos ser cruéis em relação a algo que não gostamos. E a importância também de reconhecer o sentimento de ódio e não negá-lo, pois, se o identificamos e o compreendemos, é muito mais fácil tratá-lo. Este reconhecimento é imprescindível, porque não há como tratar algo que se diz não ter.

“O ódio sempre existiu e flui por todos os lados. Não é fácil existir e acumular fracassos, dores, solidão, questões sexuais, desafetos e uma sensação de que a vida é injusta conosco. O mais fácil é a transposição para terceiros.” p.11

         O autor ressalta que o fato de alguém odiar algo, diz muito mais sobre quem odeia, do que quem é odiado.
         Alguns exemplos colocados no livro sobre a fonte de nosso ódio estar em nós e não no outro, foram as seguintes:
         – As mulheres passaram a ter direitos iguais e por isso estão ganhando espaço no mercado de trabalho, isso reduz as vagas para os homens, odeio o feminismo por isso;
         – Trabalho doze horas por dia, mas você acorda tarde, odeio essa sua atitude e digo que eu sou a virtude, pois, trabalho e você é preguiçoso, ou seja, culpo a sua preguiça, para não dizer que estou esgotado por excesso de trabalho;
         – Odeio as cotas raciais, porque os negros estão entrando nas universidades e ganhando espaço, quando na verdade, eu não consigo assumir uma vaga;
         – Odeio a Anitta porque ela faz um sucesso que deveria ser meu;  ­
       – Um homem fracassa no seu projeto amoroso. O que é mais fácil? Culpar o feminino ou a si? A resposta é fácil.
      

         
    
        De acordo com Karnal, a internet maximizou a expressão de ódio e intolerância, mas a internet não produziu os idiotas, estes puderam atacar de forma anônima e por isso, covarde, com uma energia muito grande, com certa “proteção” formando grupos de pessoas com pensamentos semelhantes.
          Discordo veemente de sua opinião de que o ideal cristão de amar aos inimigos seja uma utopia. Se ele não consegue e não vê propósito, é um problema dele. rs Não que seja algo fácil, mas é possível! Karnal faz afirmações segundo sua própria interpretação do que é ser cristão e falha. Bem típico de um não cristão que conhece a Cristo de forma técnica e inexpressiva.
         Enfim, o livro é bastante introspectivo. Considero leitura obrigatória! Para quem? Para todos! Pois, o ódio é um sentimento humano e por isso, acomete a todos nós e compreendê-lo, não é tarefa fácil, mas imprescindível para sermos melhores.

“Por isso que digo que para entender o Brasil, nós precisaríamos de mais de Freud que de Marx. Mais subjetivo e psicanalítico do que generalizado.” p.21

05/01/2018

Em-Ponderando


          Um copo com água lhe foi entregue. Estava à sua frente, depositado na mesa. Segurava um pedaço de papel em uma das mãos, que servia para abarcar as lágrimas que caíam enquanto relatava diversas violências que sofreu, quando sofreu, onde sofreu e quem as fez sofrer.

          Com a escuta atenta, disfarçando a expressão tensa, eu teria que saber qual o tipo de violência. Se psicológica, sexual, moral, física ou patrimonial. Pelo relato prestado, foram todas. É nosso dever especificar o tipo de agressão e, como tenho “sorte”, em meu primeiro atendimento no estágio de psicologia em um local que atende mulheres vítimas de violência doméstica, tinha mesmo que ser alguém muito sofrido.

          Dentre muitas consequências da violência, estão pesadelos constantes durante a noite e uma reação fisiológica que constrange a vítima por se desencadear toda vez que seu cérebro percebe que ela está em perigo, mesmo que o agressor esteja a quilômetros de distância. Qualquer traço fisionômico semelhante, já provoca nela uma sensação nauseante.

          A vida que vivia, não era dela, estava em posse de seu companheiro que de forma bem hostil, a utilizou como quis, determinando ao seu modo como ela deveria comportar-se e principalmente, onde ela não deveria ir. Como se fosse possível alguém apreender e enclausurar a volição alheia.

         Olhando para o papel em suas mãos, percebo que ele se desfaz a cada palavra por ela proferida. Ela o esfrega, o reduz em pequenos pedaços, o esfarela...

          Olho para aquela cena enquanto escuto várias outras situações constrangedoras a que foi submetida, percebendo que ela faz ao papel, o que a ela foi feito.

          "Eu posso beber água?" – perguntou.

          “Você não precisa me pedir permissão para beber um copo de água que é seu” – respondi.

          Mais lágrimas caíram de seu rosto ao se tocar sobre o peso de submissão e nulidade que sua vida havia se tornado. 

          Corri os olhos sobre a mesa à procura de um objeto. Pego um peso de papel com uma bela flor no topo e digo: “Se eu o coloco aqui no centro desta mesa e saímos da sala, ele ainda estará aqui quando retornarmos. Ele não tem vida, nem vontade própria, não pode se locomover sem que eu ou qualquer outra pessoa o tire daqui.”

          Novas lágrimas, para um drama antigo...

          Novos embargos...

          Novas situações relatadas...

          Novas intervenções realizadas e...

          Depois de tudo, um novo olhar! 

          Uma pausa longa no choro e nos tremores de suas mãos.

          Para depois de vários instantes, um sorriso invadir-lhe a face, compreensão e empatia encherem os semblantes e ambas as expressões se tornarem leves.

          E como um objeto que, ao cair no chão devido à gravidade, provoca um ruído estrondoso, sua consciência se refaz de forma súbita e o turbilhão de expectativas que se deu naquele espaço foi ensurdecedor.

          Então, terminado o acolhimento, ouvi várias promessas de retorno, recebo um sorriso, um abraço e um agradecimento. Mas fui eu quem agradeceu mesmo de forma silenciosa, por testemunhar algo poderoso. Pois, pela força que seus olhos expressavam, eu imaginava que mais uma fortaleza se levantava e as consequências de suas ações ao erguer-se, poderiam ser bem mais avassaladoras. Porque quando alguém quebrado busca energia para se restabelecer, é quase impossível que forças externas, a paralisem novamente.

          E logo depois de terminado o atendimento, ponderei e percebi que descobri na prática o que o significado de emponderar elucida. Que é encarregar, confiar a alguém, dar poder, atribuir a alguém ou a si mesmo... Ou seja, não permitir que alguém anule sua liberdade de tomar decisões sobre sua própria vida.

          A não concessão de qualquer tipo de violência é algo muito novo para uma mulher e fisicamente ela já estava livre de toda opressão, mas cada agressão ainda a aprisionavam em dores violentas.

          Há muitos anos atrás, meu sonho era lidar com esse tipo de situação e eu jamais imaginei que pudesse ser tão difícil, tanto o durante, como o depois do atendimento.

          Pois agora, entendo que não sei exatamente se estava certa quando pude olhar para ela há alguns meses atrás e julgar ter encontrado nela força para que ela mesma comande sua própria vida e tome suas próprias decisões. Mas não posso dizer também que eu estava errada, porque talvez tenha partido dela mesma, a decisão de não mais me procurar.

21/12/2017

Bloqueio

        
Foto meramente Ilustrativa. Fonte: Freepik

             
         Voltava do treino quando recebi a mensagem. Achei tão apelativa... Na época, achava Lúcia a pessoa mais estranha do mundo. Por dentro principalmente. Irritava-me o seu jeito tão sentimental.
         Olhei sua fotografia de perfil e fixando os olhos em sua cicatriz no pescoço, pensei que ela poderia ter tirado de um ângulo melhor. Lembrei-me do acidente e de tê-la ajudado no momento em que ela mesma classificou como o pior de sua vida.
         Depois deste fato, ela passou a chamar-me de anjo. Eu pensava que era por incapacidade dela em pensar em um apelido mais depreciativo. Era a única pessoa que me via dessa forma, apesar de eu jamais permitir que alguém me conhecesse a fundo.
         Se ela soubesse que eu era o oposto do anjo que ela imaginava que eu fosse, iria ser difícil tê-la por perto e, eu não podia me dar ao luxo... Os poucos contatos que eu conservava, eram reservas para quando eu precisasse de alguns favores.
         Enfim... Lúcia, Maya e eu, havíamos nos reunido no mesmo bar que tínhamos frequentado há muitos anos, na época em que trabalhávamos juntos.
         Lúcia, como eu pensava, sempre insuportavelmente sensível, repetia todo o tempo o quanto era bom estarmos ali e o quanto aquele momento era raro.
         Maya contava que havia sido demitida da empresa em que trabalhava como arquivista.
         – É melhor ter paz do que ter dinheiro – falou Lúcia tentando confortar Maya no intuito de fazê-la sentir-se melhor por estar longe do estresse que era seu trabalho, ainda que tivesse problemas financeiros.
         – Você não tem paz se o dinheiro lhe falta – balbuciei mais para mim mesmo, confrontando o consolo piegas de Lúcia que eu sempre achava muito chato. Elas ouviram. Não responderam. Concordaram comigo, só não admitiram.
         Alguns longos segundos de silêncio foram quebrados por Maya que continuou relatando as perdas de sua vida e, dessa vez, falava do término de um relacionamento. Eu apenas balançava a cabeça bebendo a cerveja, fingindo ouvir. Nada disse.
         Lucia que despejou mais uma pérola:
         – Isso era um relacionamento abusivo.
         – Não exagera! – respondeu Maya e em seguida, para se livrar dos conselhos de Lúcia, perguntou sobre minha vida amorosa.
         – Igual como sempre – respondi.
         – Como igual?
         – Inexistente! Minha vida sexual está bem ativa, obrigado! – riram.
         Lucia olhou ao redor e como se julgasse mais feliz do que eu, Maya e o restante das pessoas do local, quase subindo na mesa, falou mais alto que a música que tocava:
         – Já eu, me caso em maio.
         – Com o advogado? – tentando demonstrar desinteresse para que ela aprendesse que aquilo não era uma notícia que mudaria nossas vidas, perguntei olhando por cima dos ombros no intuito de pedir ao garçom uma porção de fritas. Já Maya, simulava um ataque do coração.
         Dez minutos depois de uma história enfadonha e clichê que ela contava como se fosse um romance digno de um Oscar, ela deu um embrulho para mim e outro para Maya, dizendo que foi por isso que marcou o encontro com nós dois àquele dia.
         Abrimos. Era uma garrafa de vinho para cada. Em um rótulo personalizado, meu nome na garrafa entregue a mim e o nome da Maya na dela, seguido de um pedido para sermos seus padrinhos de casamento.
         Bom, se antes Maya estava simulando um ataque do coração, depois desse momento ela parecia agonizar. Deu um grito agudo, pulou da cadeira e ficou balançando as mãos sorrindo de boca aberta, interpretando se emocionar, olhando para Lúcia que repetiu exatamente as mesmas atitudes.
         Eu nunca tinha recebido um pedido como esses. Pouca coisa se sabia sobre mim, mas o fato de que eu não era muito dado a casamentos, era completamente perceptível.
         Sorri e disse que seria um prazer.
         Eu odiei tanto a minha resposta e aquele pedido, que meu desejo maior era quebrar a garrafa em minha própria cabeça.
         Lúcia abraçou a mim e Maya ao mesmo tempo com braços gigantes e eu não sei exatamente o que se sucedeu logo em seguida, mas certamente eu devo ter julgado tudo muito chato e por isso apaguei da minha memória.
         Lembro da despedida e de ter sentido tanta pena da Lúcia, que assim que ela me olhou sorrindo, se despedindo, não consegui sorrir de volta porque tinha uma certeza muito firme de que aquele sorriso se apagaria dali a alguns meses ou com um pouco de sorte, dali a alguns anos. E aquele sorriso não podia desaparecer já que era uma das poucas coisas realmente verdadeiras nesse mundo. Eu tinha convicção de que todas as pessoas casadas eram infelizes. E realmente aquele foi o último sorriso que eu testemunhei dela, minha última lembrança. Depois daquele dia eu nunca mais a veria.
         Mandei uma mensagem à Lúcia pedindo perdão por ter de viajar a trabalho no dia 2 de maio, data do seu casamento. Ela não sabia que naquela época, eu estava assim como Maya, desempregado. Nem eu, sabia porquê mentia. Lúcia deve ter ficado chateada, a foto de seu perfil sumira junto com a sua insistência em nossa amizade.
         Depois de tanto tempo lembrando e relembrando esse fato, finalmente assumo que toda a minha resistência, foi pela questão de que é difícil ser padrinho de um casamento, quando bem lá no fundo, se quer ser o noivo.  

14/12/2017

Saiba o que é Mitomania e confira a dica do filme: Um Contratempo

Título original: Contratiempo
Gênero: Drama / Romance Policial
Direção / Roteiro: Oriol Paulo
Lançamento: Jan / 2017
Elenco Principal: Mario Casas, Bárbara Lennie, Ana Wagener, José Coronado.



            Não é de hoje que o cinema espanhol vem crescendo em qualidade e “Um contratempo” é a prova disso.
         É um filme inteligente, cheio de suspense e reviravolta, que possui uma história intrigante, cheia de mistério com uma narrativa pautada por situações hipotéticas.
         O filme nos lembra que as atitudes que um pai e uma mãe tomam para fazer justiça por um filho, podem não ter limites, bem como as atitudes que um homem influente é capaz de tomar para salvar sua própria pele, seu nome, sua empresa e sua família.
         Mario Casas interpreta Adrian, um jovem empresário de sucesso, rico e que tem um caso extraconjugal com a fotógrafa Laura, interpretada pela atriz Bárbara Lennie.
         Voltando de um encontro, eles se acidentam e é então que toda a história acontece. É uma história que surpreende nos detalhes.
         A atriz Ana Wagener, que interpreta a advogada, é a peça chave para desvendar tudo o que realmente aconteceu no momento do acidente. É uma mulher firme, que desempenhou um papel muito forte e central no longa.


        O fato do personagem principal mentir descaradamente, me fez querer relacionar o personagem Adrian, com o transtorno da mentira patológica (mitomania).
         O personagem, não tem essa patologia, afinal, ele só mente para se livrar de uma condenação iminente, porque ele foi responsável pela ocorrência de um acidente e, depois dele, uma série de crimes com omissão de socorro e ocultação de cadáver, inclusive. E as mentiras inventadas por ele, foram para encobrir uma série de outras mentiras anteriores. E é importante ressaltar que nem todo mentiroso é um mitomaníaco.  
         A mitomania é o transtorno que faz com que a pessoa minta de forma compulsiva, é caracterizada por ideação fantasiosa de uma história ou de um personagem. Os sujeitos contam frequentemente histórias inverídicas com o objetivo de ganhar a auto-valorização.
         Normalmente são pessoas que se gabam por se dizerem ser ricas, terem autoridade, fama, entre outras coisas, mas quando são pegas mentindo, ficam até agressivas e como consequência, contam novas mentiras.
         Os mitomaníacos mentem por gostarem de ser o centro das atenções e por isso exageram no relato de suas histórias, inventando fatos que não aconteceram. Geralmente são indivíduos manipuladores, podendo também ser inseguros, mentindo justamente para sentirem-se mais valorizados e estimados.
         O mitomaníaco se vale de um discurso crível e plausível, motivado por questões internas, não constituindo em seus relatos, elementos utópicos e irreais. Um mitomaníaco jamais vai dizer que viu um lobisomem, o papai Noel, ou algo do tipo.
         A mitomania tem diferentes causas, quando não há um quadro de um transtorno maior como a bipolaridade, por exemplo, sua causa pode ser uma maneira do sujeito sentir-se mais seguro socialmente ou por não querer revelar como ele realmente é, com seus erros e falhas, com suas fraquezas e vulnerabilidades.
         Neste caso, o tratamento é feito exclusivamente com terapia. Onde o terapeuta investiga questões relativas à autoestima e eventos traumáticos na vida da pessoa. 



E então, você gostou de saber sobre mentira patológica (mitomania)? Ficou interessado(a) no filme “Um contratempo? Conhece algum mitomaníaco? Qual outro filme que você poderia relacionar com a mitomania? Conta pra MISS.

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22/09/2017

Reificação

       


Recentemente vi a propaganda de um site de relacionamentos em que no slogan tinha a silhueta de uma mulher colocando um homem dentro de um carrinho. Quando fui ler a descrição, dizia o seguinte: “O aplicativo de relacionamento mais divertido que você já viu.”
Nesse aplicativo, há um cardápio criteriosamente pensado para atender todos os gostos: Musculosos, barbudos, rastafári, black power, mauricinhos, tatuados... E estas especificações eram chamadas de catálogos.
Parece engraçado, mas na verdade é ridículo! Os termos utilizados no aplicativo como “produto, carrinho, adoção, catálogos, saudão, loja, embalagem, prateleira, lista de compras...” para mim são repulsivos e inaceitáveis quando se trata de seres humanos.
A palavra reificação dentre alguns outros significados, é o ato de transformar em coisa, é objetivar; representar o ser humano como objeto físico sem suas individualidades; transformar o homem em coisa, em objeto de consumo. Esse aplicativo eleva a coisificação do homem a um nível extremo. 
A explicação que a administradora do aplicativo deu-me quando comuniquei meu incômodo foi a seguinte: “Esses termos usados no app são utilizados exatamente de forma irônica, mostrando como seria a sociedade se a gente trocasse os papeis na hora da paquera! Nosso objetivo não é objetificar os caras, mas mostrar que as mulheres têm o poder de escolha, têm os mesmos direitos.”
Sei, não! Retribuir a forma grotesca de como as mulheres, às vezes são tratadas, não é bom sinal. Aliás, essa tentativa de igualdade para mim é dispensável, pois, quem não se incomoda em comprar o outro, é porque não se incomoda em se colocar à venda.
Assim como roupas, sapatos, bolsas, objetos, livros... Estamos sujeitos a avaliações como se fôssemos coisa, como se fôssemos objeto. Qualquer outro aplicativo de relacionamento pode não usar esses conceitos de mercado, mas tem funções semelhantes. No entanto, eles existem porque nos acostumamos a nos escondermos atrás da tela, pois, esta facilita a comunicação e o descarte, já que poucas pessoas aprenderam a lidar com os seus próprios sentimentos e os sentimentos dos outros. E também esses aplicativos servem para possibilitar a discriminação do que se almeja em relação a um parceiro somente pelas características físicas e nem sempre pelas características de sua personalidade.
A sociedade é levada a consumir e transformou o homem em objeto de consumo. O que você faz com um produto? Usa conforme a sua vontade e depois que ele não lhe serve mais, você o descarta!
Essa descartabilidade humana se tratando do mundo virtual ou não, trouxe um empobrecimento de nossas relações afetivas, nossa forma de nos relacionarmos com o outro está tão banal que fica difícil de estabelecer vínculos, pois com a facilidade que estabelecemos os laços, também o desfazemos e, não criar vínculos, pode acarretar conflitos psicológicos, uma vez que é na relação com o outro que nos construímos que nos desenvolvemos e que existimos.

30/08/2017

Resenha do livro: "Diário de uma Paixão" e sua relação com a Biblioterapia

Título do livro: Diário de uma paixão
Título original: The notebook
Autor: Nicholas Sparks
Gênero: Romance / Drama
Editora: Novo Conceito
Páginas: 223






“Quando conseguiu vencer o nó que tinha se formado em sua garganta ele sussurrou: – Você é a resposta para as minhas orações. Você é uma canção, um sonho, um murmúrio e não sei como consegui viver sem você durante tanto tempo.” p.138


Nicholas Sparks é rico em minúcias. Recheia suas histórias com muitos detalhes e isso é bom e ruim ao mesmo tempo. Ruim por tornar a leitura cansativa e bom porque a torna mais completa.
Diário de uma paixão é um livro que possui uma história semelhante a muitas outras, mas contada de uma forma especial. Todas as cenas são impecavelmente bem descritas.
Noah e Allie se apaixonaram durante a adolescência e mesmo após serem obrigados a se afastarem um do outro, ambos não esqueceram da paixão que haviam vivido e quando se encontram novamente, muito tempo depois, Allie está noiva de Lon.


“...Tinha se apaixonado uma vez, uma única vez, muito tempo atrás, isso o mudara para sempre. O amor perfeito faz isso com as pessoas, e aquele tinha sido perfeito.” p.24


Noah é um homem que mantinha uma vida humilde em Nova Berna. Sensível, gostava de poesia, de música, de animais, de admirar a natureza... Era um homem bonito tanto por dentro quanto por fora, que amou uma única mulher em toda sua vida.
Allie, a quem era destinado o amor de Noah, era uma mulher bem à frente de seu tempo, que tinha um talento incrível para a pintura.
Já Lon, o noivo de Allie que é o empecilho para ambos reviverem o romance, é o tipo perfeito dos livros de romance atuais. O típico moço rico, super bem sucedido, que não quer se envolver sério com ninguém até que acha uma pessoa diferente de muitas outras mulheres que conheceu e decide viver com ela para a vida toda. Lon, sem dúvida é um partidão e perceber essas características me fez ver o quanto a escrita de Nickolas é diferenciada, porque Lon não cai no estereótipo dos romances atuais. 





O filme também é muito emocionante, muito bem produzido, tem uma fotografia incrível, luzes e cores muito bem trabalhadas. Os atores foram muito bem escolhidos, mas não emociona tanto quanto a escrita de Nickolas e tem informações bem diferentes da história do livro.


Noah lê para Allie



Os anos passam e Noah passa a desenvolver uma atividade muito bacana, que é a leitura de histórias e poesias para outros idosos da casa de repouso. Essa questão trabalhada na história me fez lembrar da biblioterapia.
A biblioterapia é um benefício terapêutico proporcionado pela leitura.
É uma atividade que pode ser realizada por psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais ou bibliotecários com formação terapêutica para restabelecer ou prevenir transtornos emocionais.
A biblioterapia geralmente é utilizada em hospitais, em pacientes que precisam ficar muito tempo internados e assim a leitura funciona como um momento de descontração para alívio dos efeitos emocionais da hospitalização.


“Parece que somente os velhos conseguem ficar sentados desse jeito, um ao lado do outro, sem nada a dizer, e ainda sim se sentirem contentes. Os jovens, irrequietos e impacientes, têm sempre de quebrar o silêncio. É um desperdício, porque o silêncio é puro [...] só quem se sente confortável ao lado de outra pessoa pode ficar sentado sem falar. Esse é o grande paradoxo.” p. 190


Enquanto lia "Diário de uma Paixão" muitas vezes desejei que as problemáticas vivenciadas pelos protagonistas, poderiam não acontecer com muitas outras pessoas na vida real. Principalmente a que ocorre no final do livro, pois é profundamente triste.
Eu chorei de verdade, sorri, me surpreendi, fiquei com o coração apertado... Por tanto, é uma leitura que vale à pena, porque um bom livro tem que mexer com as nossas emoções, não é?

01/08/2017

Vamos filosofar? Livro "Caixa de Pássaros" #resenha

Título Original: Bird Box
Editora: Intrínseca
Autor: Josh Malerman
Páginas: 268
Ano: 2015

"Viver sem filosofar é o que se chama ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir." (René Descartes)


Nesta narrativa, enxergar trazia destruição e morte por causa de umas criaturas que quando eram vistas, faziam com que pessoas enlouquecessem matando quem estivesse por perto e logo em seguida se matasse.
Angústia é minha principal sensação ao ler Caixa de Pássaros. Os capítulos alternam entre passado e presente, o que fez a sensação ser ainda mais intensa.
Apesar de tratar-se de uma obra fictícia, o que aprendi com a história, pode ser útil para nossa realidade.

Jardim Botânico, RJ




Vendas, pouca luz, isolamento, medo, é o que se pode perceber de forma frequente em Caixa de Pássaros.
Mesmo não estando neste mundo distópico do livro, há muitas pessoas que vivem assim, só que diferente desta história, elas podem e devem enxergar, podem sair das sombras, retirar as vendas, mas não querem ou não sabem que podem.
Há uma frase que diz que abrir os olhos, pode ser a coisa mais dolorosa que podemos fazer.
Pode ser doloroso, mas não é tão enlouquecedor como no filme e é o melhor que temos a realizar diante de qualquer questão.
Também tem uma música que se chama “Abri os olhos” composta e interpretada pela cantora Sandy que em um dos trechos ela relata bem o que a frase acima quer dizer: 

Abri os olhos
Não consigo mais fechar
Assisto em silêncio
Até o que eu não quero enxergar
Não sei afastar
A dor de saber...
Enquanto eu penso
Tanto, entendo
O que é mais fácil
Não pensar
O que era certo
Eu aprendi
A sempre questionar

Não sabia que a música da Sandy era assim tão filosófica. rs
Abrir os olhos nesse contexto mais filosófico, significa ir em busca da verdade.
Filosofar é basicamente a reflexão de modo crítico sobre todas as coisas. O conhecimento abre nossos olhos.
A importância do filosofar é questionar e por isso, refletir e ponderar sobre tudo aquilo que nos chega como informação, como verdade. E isso inclui também a crítica sobre nossos próprios pensamentos, crenças, ideais políticos, religiosos, valores, comportamento, relações...
René Descartes, o mesmo autor da epígrafe desta resenha, diz que nossas certezas só são realmente nossas, se um dia elas tiverem sido colocadas em dúvida. Quando duvido, reflito e se reflito, penso. Se penso, logo existo!


“Que tipo de homem se acovarda quando o fim do mundo chega? Quando seus irmãos estão se matando, quando as ruas residenciais dos Estados Unidos estão infestadas de assassinatos... Que tipo de homem se esconderia atrás de cobertores e vendas? A resposta é a MAIORIA dos homens. Disseram a eles que poderiam enlouquecer. Então eles enlouquecem.” p. 190


Nesse livro específico e em muitos outros que abordam o terror psicológico, o medo é algo muito frequente. Sabendo que mesmo tendo a função de preservar a nossa vida, o medo em excesso muitas vezes nos paralisa, ressalto a coragem da Malorie, a personagem principal, que foi em busca de uma nova vida literalmente no escuro. Driblando seus medos e incertezas.
Malorie, não acomodou-se em uma situação caótica, mas agiu apesar de todo sofrimento e de toda dor tanto física, quanto emocional que já havia sentido.
Enfim... Muitas vezes em nossa realidade, o presente e o futuro, o crescimento, o desenvolvimento, são atravancados por uma série de fatores que nos dificultam a enfrentar o novo. Quantas vezes deixa-se de realizar alguma coisa por medo do que vai ser encontrado à frente?
Malorie é uma personagem determinada, corajosa, e mesmo tendo sido criada para uma história literária completamente diferente das que aprecio ler, ela ganhou meu coração por ser tão determinada, corajosa, e resiliente. Mais ainda por saber que quem a interpretará na versão do filme é a atriz Sandra Bullock.
Enfim, o que pude relacionar com o livro, é o que aprendi com a vida: Ser ousado, enfrentar os medos, não se acovardar, ser determinado, questionar, refletir...

“O homem é a criatura que ele teme” p. 210

Nossas ameaças são reais. Existem pessoas que alimentam nosso medo, nossa ignorância, a melhor maneira de lutar contra, é retirando as vendas e abrindo os olhos.
Enfim, o final não é esclarecedor, embora a maneira como o autor explica o título do livro através dos olhos de Malorie é surpreendente. Se você gosta do gênero, irá gostar do livro.