22/09/2017

Reificação

       


Recentemente vi a propaganda de um site de relacionamentos em que no slogan tinha a silhueta de uma mulher colocando um homem dentro de um carrinho. Quando fui ler a descrição, dizia o seguinte: “O aplicativo de relacionamento mais divertido que você já viu.”
Nesse aplicativo, há um cardápio criteriosamente pensado para atender todos os gostos: Musculosos, barbudos, rastafári, black power, mauricinhos, tatuados... E estas especificações eram chamadas de catálogos.
Parece engraçado, mas na verdade é ridículo! Os termos utilizados no aplicativo como “produto, carrinho, adoção, catálogos, saudão, loja, embalagem, prateleira, lista de compras...” para mim são repulsivos e inaceitáveis quando se trata de seres humanos.
A palavra reificação dentre alguns outros significados, é o ato de transformar em coisa, é objetivar; representar o ser humano como objeto físico sem suas individualidades; transformar o homem em coisa, em objeto de consumo. Esse aplicativo eleva a coisificação do homem a um nível extremo. 
A explicação que a administradora do aplicativo deu-me quando comuniquei meu incômodo foi a seguinte: “Esses termos usados no app são utilizados exatamente de forma irônica, mostrando como seria a sociedade se a gente trocasse os papeis na hora da paquera! Nosso objetivo não é objetificar os caras, mas mostrar que as mulheres têm o poder de escolha, têm os mesmos direitos.”
Sei, não! Retribuir a forma grotesca de como as mulheres, às vezes são tratadas, não é bom sinal. Aliás, essa tentativa de igualdade para mim é dispensável, pois, quem não se incomoda em comprar o outro, é porque não se incomoda em se colocar à venda.
Assim como roupas, sapatos, bolsas, objetos, livros... Estamos sujeitos a avaliações como se fôssemos coisa, como se fôssemos objeto. Qualquer outro aplicativo de relacionamento pode não usar esses conceitos de mercado, mas tem funções semelhantes. No entanto, eles existem porque nos acostumamos a nos escondermos atrás da tela, pois, esta facilita a comunicação e o descarte, já que poucas pessoas aprenderam a lidar com os seus próprios sentimentos e os sentimentos dos outros. E também esses aplicativos servem para possibilitar a discriminação do que se almeja em relação a um parceiro somente pelas características físicas e nem sempre pelas características de sua personalidade.
A sociedade é levada a consumir e transformou o homem em objeto de consumo. O que você faz com um produto? Usa conforme a sua vontade e depois que ele não lhe serve mais, você o descarta!
Essa descartabilidade humana se tratando do mundo virtual ou não, trouxe um empobrecimento de nossas relações afetivas, nossa forma de nos relacionarmos com o outro está tão banal que fica difícil de estabelecer vínculos, pois com a facilidade que estabelecemos os laços, também o desfazemos e, não criar vínculos, pode acarretar conflitos psicológicos, uma vez que é na relação com o outro que nos construímos que nos desenvolvemos e que existimos.

30/08/2017

Resenha do livro: "Diário de uma Paixão" e sua relação com a Biblioterapia

Título do livro: Diário de uma paixão
Título original: The notebook
Autor: Nicholas Sparks
Gênero: Romance / Drama
Editora: Novo Conceito
Páginas: 223






“Quando conseguiu vencer o nó que tinha se formado em sua garganta ele sussurrou: – Você é a resposta para as minhas orações. Você é uma canção, um sonho, um murmúrio e não sei como consegui viver sem você durante tanto tempo.” p.138


Nicholas Sparks é rico em minúcias. Recheia suas histórias com muitos detalhes e isso é bom e ruim ao mesmo tempo. Ruim por tornar a leitura cansativa e bom porque a torna mais completa.
Diário de uma paixão é um livro que possui uma história semelhante a muitas outras, mas contada de uma forma especial. Todas as cenas são impecavelmente bem descritas.
Noah e Allie se apaixonaram durante a adolescência e mesmo após serem obrigados a se afastarem um do outro, ambos não esqueceram da paixão que haviam vivido e quando se encontram novamente, muito tempo depois, Allie está noiva de Lon.


“...Tinha se apaixonado uma vez, uma única vez, muito tempo atrás, isso o mudara para sempre. O amor perfeito faz isso com as pessoas, e aquele tinha sido perfeito.” p.24


Noah é um homem que mantinha uma vida humilde em Nova Berna. Sensível, gostava de poesia, de música, de animais, de admirar a natureza... Era um homem bonito tanto por dentro quanto por fora, que amou uma única mulher em toda sua vida.
Allie, a quem era destinado o amor de Noah, era uma mulher bem à frente de seu tempo, que tinha um talento incrível para a pintura.
Já Lon, o noivo de Allie que é o empecilho para ambos reviverem o romance, é o tipo perfeito dos livros de romance atuais. O típico moço rico, super bem sucedido, que não quer se envolver sério com ninguém até que acha uma pessoa diferente de muitas outras mulheres que conheceu e decide viver com ela para a vida toda. Lon, sem dúvida é um partidão e perceber essas características me fez ver o quanto a escrita de Nickolas é diferenciada, porque Lon não cai no estereótipo dos romances atuais. 





O filme também é muito emocionante, muito bem produzido, tem uma fotografia incrível, luzes e cores muito bem trabalhadas. Os atores foram muito bem escolhidos, mas não emociona tanto quanto a escrita de Nickolas e tem informações bem diferentes da história do livro.


Noah lê para Allie



Os anos passam e Noah passa a desenvolver uma atividade muito bacana, que é a leitura de histórias e poesias para outros idosos da casa de repouso. Essa questão trabalhada na história me fez lembrar da biblioterapia.
A biblioterapia é um benefício terapêutico proporcionado pela leitura.
É uma atividade que pode ser realizada por psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais ou bibliotecários com formação terapêutica para restabelecer ou prevenir transtornos emocionais.
A biblioterapia geralmente é utilizada em hospitais, em pacientes que precisam ficar muito tempo internados e assim a leitura funciona como um momento de descontração para alívio dos efeitos emocionais da hospitalização.


“Parece que somente os velhos conseguem ficar sentados desse jeito, um ao lado do outro, sem nada a dizer, e ainda sim se sentirem contentes. Os jovens, irrequietos e impacientes, têm sempre de quebrar o silêncio. É um desperdício, porque o silêncio é puro [...] só quem se sente confortável ao lado de outra pessoa pode ficar sentado sem falar. Esse é o grande paradoxo.” p. 190


Enquanto lia "Diário de uma Paixão" muitas vezes desejei que as problemáticas vivenciadas pelos protagonistas, poderiam não acontecer com muitas outras pessoas na vida real. Principalmente a que ocorre no final do livro, pois é profundamente triste.
Eu chorei de verdade, sorri, me surpreendi, fiquei com o coração apertado... Por tanto, é uma leitura que vale à pena, porque um bom livro tem que mexer com as nossas emoções, não é?

01/08/2017

Vamos filosofar? Livro "Caixa de Pássaros" #resenha

Título Original: Bird Box
Editora: Intrínseca
Autor: Josh Malerman
Páginas: 268
Ano: 2015

"Viver sem filosofar é o que se chama ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir." (René Descartes)


Nesta narrativa, enxergar trazia destruição e morte por causa de umas criaturas que quando eram vistas, faziam com que pessoas enlouquecessem matando quem estivesse por perto e logo em seguida se matasse.
Angústia é minha principal sensação ao ler Caixa de Pássaros. Os capítulos alternam entre passado e presente, o que fez a sensação ser ainda mais intensa.
Apesar de tratar-se de uma obra fictícia, o que aprendi com a história, pode ser útil para nossa realidade.

Jardim Botânico, RJ




Vendas, pouca luz, isolamento, medo, é o que se pode perceber de forma frequente em Caixa de Pássaros.
Mesmo não estando neste mundo distópico do livro, há muitas pessoas que vivem assim, só que diferente desta história, elas podem e devem enxergar, podem sair das sombras, retirar as vendas, mas não querem ou não sabem que podem.
Há uma frase que diz que abrir os olhos, pode ser a coisa mais dolorosa que podemos fazer.
Pode ser doloroso, mas não é tão enlouquecedor como no filme e é o melhor que temos a realizar diante de qualquer questão.
Também tem uma música que se chama “Abri os olhos” composta e interpretada pela cantora Sandy que em um dos trechos ela relata bem o que a frase acima quer dizer: 

Abri os olhos
Não consigo mais fechar
Assisto em silêncio
Até o que eu não quero enxergar
Não sei afastar
A dor de saber...
Enquanto eu penso
Tanto, entendo
O que é mais fácil
Não pensar
O que era certo
Eu aprendi
A sempre questionar

Não sabia que a música da Sandy era assim tão filosófica. rs
Abrir os olhos nesse contexto mais filosófico, significa ir em busca da verdade.
Filosofar é basicamente a reflexão de modo crítico sobre todas as coisas. O conhecimento abre nossos olhos.
A importância do filosofar é questionar e por isso, refletir e ponderar sobre tudo aquilo que nos chega como informação, como verdade. E isso inclui também a crítica sobre nossos próprios pensamentos, crenças, ideais políticos, religiosos, valores, comportamento, relações...
René Descartes, o mesmo autor da epígrafe desta resenha, diz que nossas certezas só são realmente nossas, se um dia elas tiverem sido colocadas em dúvida. Quando duvido, reflito e se reflito, penso. Se penso, logo existo!


“Que tipo de homem se acovarda quando o fim do mundo chega? Quando seus irmãos estão se matando, quando as ruas residenciais dos Estados Unidos estão infestadas de assassinatos... Que tipo de homem se esconderia atrás de cobertores e vendas? A resposta é a MAIORIA dos homens. Disseram a eles que poderiam enlouquecer. Então eles enlouquecem.” p. 190


Nesse livro específico e em muitos outros que abordam o terror psicológico, o medo é algo muito frequente. Sabendo que mesmo tendo a função de preservar a nossa vida, o medo em excesso muitas vezes nos paralisa, ressalto a coragem da Malorie, a personagem principal, que foi em busca de uma nova vida literalmente no escuro. Driblando seus medos e incertezas.
Malorie, não acomodou-se em uma situação caótica, mas agiu apesar de todo sofrimento e de toda dor tanto física, quanto emocional que já havia sentido.
Enfim... Muitas vezes em nossa realidade, o presente e o futuro, o crescimento, o desenvolvimento, são atravancados por uma série de fatores que nos dificultam a enfrentar o novo. Quantas vezes deixa-se de realizar alguma coisa por medo do que vai ser encontrado à frente?
Malorie é uma personagem determinada, corajosa, e mesmo tendo sido criada para uma história literária completamente diferente das que aprecio ler, ela ganhou meu coração por ser tão determinada, corajosa, e resiliente. Mais ainda por saber que quem a interpretará na versão do filme é a atriz Sandra Bullock.
Enfim, o que pude relacionar com o livro, é o que aprendi com a vida: Ser ousado, enfrentar os medos, não se acovardar, ser determinado, questionar, refletir...

“O homem é a criatura que ele teme” p. 210

Nossas ameaças são reais. Existem pessoas que alimentam nosso medo, nossa ignorância, a melhor maneira de lutar contra, é retirando as vendas e abrindo os olhos.
Enfim, o final não é esclarecedor, embora a maneira como o autor explica o título do livro através dos olhos de Malorie é surpreendente. Se você gosta do gênero, irá gostar do livro.

10/07/2017

Amnésia

Este conto foi criado à partir do desafio imagem/palavra do grupo: Café com Blog. A palavra recebida foi: LEMBRANÇAS. Além da palavra recebida, a reportagem do Programam Fantástico sobre o roubo dos queijos também foi inspiradora. 

Fonte: Grassroots Gourmet














         “Preciso escrever” pediu quase implorando
Mas não teve jeito, minha vontade sempre prevalecia.
No entanto, tivemos que retornar assim que chegamos ao restaurante. Um vendaval muito forte fazia com que algumas pessoas que insistiam estar ali, jantassem forçosamente à luz de velas. Eu não quis ficar. 
Ele me abraçou na mesma hora que chacoalhou o guarda-chuva para o ar e ele se abriu. Fomos em direção ao carro e seguimos para casa debaixo de uma chuva forte.
Senti-me culpada por ter insistido. Porém, ele não reclamou, não fez cara feia. Raramente demonstrava estar chateado com algo, principalmente comigo. Simplesmente assim que chegamos, se pôs em frente ao notebook para escrever. Eu invejava tanta criatividade. 
Alguns ossos do meu corpo haviam sido reconstituídos por ele. Havia sido cirurgião. Eu sentia fortes dores de cabeça e os remédios que tomava, eram por ele administrados religiosamente. Ele nunca se afastava de mim, mantínhamos uma vida solitária em Serra da Saudade. Uma cidadezinha de Minas Gerais com menos de mil habitantes.
Era um homem demasiadamente bom. Havia sido doutrinada a amá-lo e não havia um único dia da minha vida que eu não o amasse com tanta intensidade. 
Ele dedicava-se a escrever. Alguns livros eram para fins científicos, assinados pelo seu verdadeiro nome. Outros levavam pseudônimos famosos, alguns deles femininos.
Eu odiava ler! Mas me esforçava em sentar e conhecer seus textos lendo-os de forma muito investigativa. Como se pudesse compreender como ele possuía uma imaginação tão fértil.
Mas a história de quando nos conhecemos era o meu conto favorito. Achava tão surpreendente quanto intrigante. Ele contava da seguinte forma: 

Passávamos uns dias em La Fattoria dei Monaci, uma espécie de grande fazenda que ficava próxima ao caseifício produtor de parmigianno-regianno, localizado na província de Modena, mais precisamente na Emília-Romanha, Itália. Você viajava com sua irmã e eu com um grupo de amigos da faculdade.
No início de uma bela noite, no céu as estrelas repousavam enquanto eu me movia deixando meu corpo leve ser comandado por meus pés, eles seguiam instintivamente o caminho já previamente traçado pelo destino. Admirando o manto brilhante lá no alto, eu distraído, seguia sem perceber que uma das estrelas estava bem próxima. 
Assim que a encontrei, tive a certeza de que nenhuma outra visão no mundo me seria tão plena. A estrela estava estendida na grama, envolta por um tecido fino, com uma fenda na parte de baixo, que deixava à mostra a maior parte de seu formato, uma de suas mãos enrolavam uma mecha dos seus próprios cachos.
Perguntei se podia fazer-lhe companhia. Descobri que você também era brasileira. Conversamos sobre as músicas que gostávamos de ouvir. Nossos gostos eram bem parecidos. Você falava com muito entusiasmo de sua última viagem ao Norte do Brasil, de como era viver na cidade maravilhosa e me ouviu atentamente sobre Eneida, o poema épico do poeta Virgilio.
Meus amigos tinham ido à Thinkstock, a praça principal e sua irmã saíra com um rapaz que havia conhecido na viagem. Eles estavam desde cedo em Ravena.
Ficamos conversando por longas horas até perceber que o silêncio na fazenda havia ficado tão forte quanto o vento frio que cortava nossos rostos. Mas quando meu braço envolveu seus ombros e você se encolheu para aquecer-se em meu abraço, um barulho ensurdecedor vindo da cozinha do local encheu nossos ouvidos.
Fomos em direção a ele.
Gritamos.
Tudo estava escuro.
Até que surgiu à nossa frente um homem alto e careca, com um bigode enorme, trajando um dólmã branco, na cabeça um toque blanche e que se apresentou a nós como Enrico Montanari.
Ele nos cumprimentou cordialmente embora seu olhar trouxesse o questionamento sobre o motivo de nós dois estarmos ali àquela hora.
Nos convidando para adentrarmos à cozinha, ele disse que vinha do caseifício, e que além de maestri casari era também o dono da fazenda. O homem extremamente gordo e muito forte, trazia nas mãos duas fôrmas de queijo.
Olhamos aquilo muito admirados, pois, as fôrmas pesavam uns 40 quilos cada. Uma delas ele abriu na hora com um machado não tão limpo e nos ofereceu abrindo um vinho, comendo do queijo com tanta rapidez, que era como se não fosse comer nunca mais na vida.
Em seguida colocou o restante do queijo em uma sacola, e pôs a sacola junto com outras 3 ou 4 fôrmas de queijo parmigiano-reggiano em um carrinho. Pediu para que nós o esperássemos ali que nos levaria ao local onde os queijos ficavam guardados. 
Tamanha era a rapidez do homem no consumo do queijo, que ele se ausentou deixando grossos pedaços dele no chão.
Eu recolhi um pedaço da embalagem da faixa de marcação e percebi que a peça que o Sr. Montanari estava a consumir, já tinha uns sete anos de fabricação. Por isso, era valiosíssima.
Esperamos um bom tempo até que ele voltasse, estávamos desejosos de conhecer a produção.
Até que, chegou uma senhora assustada nos perguntando o que estávamos fazendo ali.
Quando ela viu os pedaços de queijo recortados e comidos espalhados pelo chão, ela começou a gritar desesperadamente e nós explicamos que estávamos ali junto com o Sr. Enrico Montanari, o dono da fazenda.
Assim que ouviu esse nome, o semblante da velha deformou-se em uma expressão espantada, pôs a mão no coração e desmaiou.
Antes ela havia tocado um botão preso à parede da cozinha, fazendo com que os seguranças aparecessem ao toque desse botão que fez soar uma campanhinha e, tendo sido chamado a polícia, fomos levados para a delegacia.
Lá soubemos que o Sr. Montanari era o ex-marido da Dona Fátima, o herdeiro de La Fattoria dei Monaci e que havia falecido há mais de quinze anos.
Só fomos liberados porque Dona Fátima acreditou em nós e suspendeu a investigação dando a certeza de que era o espírito do marido que não havia abandonado sua fazenda. Cético, o delegado arquivou o caso meio a contragosto, não sabendo se ria da situação ou se ficava furioso.
Embora, anos mais tarde soubemos que o funcionário que era sim um mestre dos queijos, foi o autor dos roubos naquele dia. Porque a aparição do tal espírito não se sucedeu só naquele dia. Uma forma de parmiggiano-reggiano, vale uns 500 euros. É um dos queijos mais caros do mundo, ainda fabricado quase da mesma maneira que há milênios atrás.
A partir do que passamos naquela noite em Modena, decidimos que não podíamos viver separados, e passamos a viajar juntos: Anatólia, Savran, Bruges, Kalgoorlie, Kelibia... Nosso amor se fortaleceu, nós nos casamos e fomos morar juntos no Sul do nosso Brasil.

Uma outra história, Abílio contava mais breve que a primeira, com os olhos distantes e marejados, parecia muito dolorosa a ele essa lembrança:

Sabe meu amor, como ninguém neste mundo tem o direito de ser feliz como éramos, o mesmo destino que nos uniu de forma tão louca, também nos deu um obstáculo para ser superado.
Havia uma época em que eu trabalhava muito no hospital e você se sentia muito sozinha. Desejou visitar sua irmã que decidiu depois de um tempo, vir morar próximo a nós. 
Quando você me ligou informando que estava voltando para o nosso lar e que sua irmã te acompanharia no caminho de volta, pois iria passar alguns dias do feriado de carnaval conosco, foi aí que tudo aconteceu.
Vocês sofreram um grave acidente na BR-386, que culminou com a internação de ambas. Infelizmente sua irmã... 

Ele sempre embargava nessa parte. Era a hora em que contava que minha irmã havia morrido. Abílio classificava os duros anos que fiquei em coma, como os mais difíceis de sua vida, embora só via sentido na vida, porque vivia cuidando de mim.
O hospital havia se tornado o nosso lar e é por isso que ele se aposentou tão logo eu milagrosamente pude ter alta. 
Assim que abri os olhos, ao sair do coma, eu não lembrava de absolutamente nada. Era como se eu houvesse nascido naquele dia. Minha memória estava totalmente apagada. Nem meu nome eu lembrava. 
Abílio ressaltou que eu perdi os documentos quando o carro explodiu e que a minha sorte é que um motorista que passara na hora, retirou eu e minha irmã antes que o carro explodisse.
E ele se encarregou de nutrir minhas lembranças, tendo a missão de fazer eu me “reapaixonar” por ele. Me explicou sobre um passado que eu não recordava de jeito algum.
Reaprendi a andar, a vestir-me, a falar, a comer, a ler, a escrever...
Além de ter que me acostumar com as marcas que o acidente causou em meu corpo e em meu rosto, apesar da casa não possuir espelhos.
Um dia, pedi para ver algumas de minhas fotos para saber como era a minha antiga aparência e tentar talvez lembrar-me de algo. 
No entanto, fui informada de que havia descartado todos os vestígios do meu antigo rosto a fim de proteger-me. E eu achei mesmo que ele não poderia ter feito coisa melhor, embora nos contentássemos em nos vislumbrarmos um no outro.
Vez ou outra pedia a Abílio para me repetir as mesmas histórias ou dizer como haviam sido as viagens para as cidades que ele citava, e que eu não sabia nem a qual países elas pertenciam.
Sem nem sequer esquecer-se de um só ponto, ele contava tudo, fazendo qualquer um crer que possuía a mais absoluta certeza do que dizia.
Contudo, fazia uns 9 anos que eu havia recobrado a memória. Tinha voltado primeiro como um grão de areia e depois ganhado força estrondosa.
O nome dos meus pais, a minha primeira professora, a forma de como eu me comportava quando criança, a idade do meu primeiro beijo, o nome do cara que eu transei pela primeira vez, o motivo de eu ter quebrado a perna na adolescência, o motivo de meu comportamento arredio com as pessoas à minha volta, a educação regrada dada por meus pais... Tudo isso, segundo Abílio, eu havia contado a ele antes de ter perdido a memória. Mas eram fatos que ele inventava sem saber de que eu já lembrava o meu passado e que Abílio, não estava nele.
O fato de eu ter sofrido um acidente, perdido minha irmã e a memória, eram as únicas verdades que Abílio contava. Antes do acidente, eu nem o conhecia. A primeira vez que o vi, foi quando abri os olhos no hospital. Depois do coma.


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La fattoria dei Monaci = A fazenda do monge (Nome fictício)
Parmigiano-reggiano = Queijo parmesão original e muito valioso
Maestre casari = Mestre culinário (especialista no preparo dos queijos)
Caseifício ´= Lugar onde se faz queijo
Toque blanche = Chapeú de mestre cuca
Dolmã = Uniforme de chefe de cozinha

20/06/2017

Filme: Palmeras en la nieve, uma superprodução espanhola

Título original: Palmeras em la nieve
Diretor: Fernando Gonzáles Molina 
Gênero: Drama / Romance
Lançamento: 2015
Roteiro: Sérgio G. Sanchez
Música: Luiz Vidal
Fotografia: Xavi Giménez
Duração: 2h 43m
Elenco Principal: Mario Casas, Adriana Ugarte, Berta Vásquez, Macarena García, Emilio Gutiérrez Caba, Alain Hernández, Celso Bugallo, 
Classificação: Não recomendado para menores de 18 anos 


– Como elas encontram o caminho?
– Nunca esquecemos nossa origem!

Palmeras em la nieve é uma viagem histórica, que apesar das adaptações para a ficção, foi construída através de recordações reais de pessoas que viveram na época da colonização da Guiné Equatorial pela Espanha. 
Antes de tornar-se uma obra cinematográfica, fez sucesso na literatura, tendo Luz Gabás como autora.
Gabás, narra a experiência de seu pai quando aos 24 anos de idade, foi trabalhar na plantação de cacau em Sampaka, na ilha de Fernando Poo, Guiné Equatorial, África do Sul. 
Palmeras em la nieve é um romance muito sensível, com cenas alternando entre passado e presente, interpretadas por atores que a meu ver, possuem elevada qualidade profissional. 
Do elenco, destaco a brilhante atuação do ator Mario Casas e a caracterização de seu personagem para a passagem do tempo. 

“Meu corpo não é intocado, mas meu coração sim. Eu o entreguei a você.”

Todas as histórias de amor são clichês. O que vai definir se a história contada vale à pena, é a forma de como ela é contada. O amor proibido entre Kilian e Bisila e suas diferenças culturais, não são temas originais, vários romances já abordaram temáticas semelhantes, mas a maneira efêmera e intensa de como os dois se apaixonam é o que enternece.
É um filme especial, sobretudo por não abordar unicamente a questão do romance entre Bisila e Kilian, mas por abordar assuntos como a exploração do trabalho, as diferenças culturais e sociais, fazer denúncias sobre a situação social, da época histórica da colonização e também abordar o machismo de forma sutil, entre outros temas. O filme é rico justamente por enfatizar temas transversais.

– Vocês fazem o que querem e não são julgados. Nós temos que esperá-los cansar das folias... E voltem para ter uma esposa fiel em casa, porque há um nome para as mulheres que se comportam como vocês. E se eu me envolvesse com alguém a cada fim de semana? 

Na tribo de Bisila o único casamento válido é aquele onde o homem compra a virgindade da mulher, o qual ela deve ser sempre fiel ao marido e onde o marido nunca deve abandonar sua esposa, apesar das muitas outras que ele venha ter.

“Ela deve ser fiel ao marido como a areia na praia, que só é banhada por um oceano.”

Clarence (Adriana Ugarte) e Iniko (Djedje Apali)

Anos mais tarde a jovem Clarence, filha do irmão de Kilian, vai em busca de tentar compreender a história do passado de sua família e descobre histórias cheias de turbulências e que ainda traz dolorosas lembranças ao povo de Bioko (nome atual de Fernando Poo).
Embora a qualidade técnica da superprodução tenha sido enfatizada de forma unânime, o filme recebeu duras críticas por diversos sentidos. Na verdade há divergências comuns entre as opiniões sobre as atuações do elenco, roteiro, linguagem, mas as críticas mais apontadas foram a falta de mais elementos sobre a colonização, o fato do filme ser muito extenso, o foco no romance e a qualidade expressiva do ator principal. 
A negatividade das criticas ressaltam exatamente aquilo que todo mundo já sabe: O livro é muito mais completo que o filme. E acreditam que toda essa superprodução poderia ser melhor aproveitada.
Bem, acredito que há uma contradição entre as críticas pelo filme ser longo e por ele não abordar mais profundamente as questões mais reais da época da colonização. Afinal, como realizar um filme baseado em um romance de pouco mais de 700 páginas e ainda desejar que ele seja a cópia fiel do livro, mas sem que fique extenso?
Entendo que romances não fazem o gosto da maioria das pessoas, no entanto, mesmo que a história fosse impecavelmente bem contada, ainda seria criticada pelo fato do ator Mario Casas ser mundialmente conhecido por seu trabalho no romance juvenil “Três metros sobre o céu”, e "Tengo ganas de ti", também dirigido por Molina. Sendo assim, por melhor que ele fosse, ainda sim sua atuação seria estigmatizada.
Na minha opinião, os filhos de Bisila não convencem na idade. Essa parte ficou sim muito mal formulada. E também por não deixar claro qual o final que se destinou à sua personagem, entre outros pontos que como todo bom filme, ficam um pouco soltas, embora não comprometam à sua qualidade. No mais, é um filme muito belo e emocionante. 
Abaixo você pode conferir a música original gravada por Pablo Aborán e que foi vencedora do prêmio Goya 2015 e conferir algumas imagens do filme:




– Mais cedo ou mais tarde eles voltarão para nos pegar, não vão permitir que fiquemos juntos.
– Talvez não nos deixem viver juntos, mas nada irá nos separar.


09/06/2017

A arte que eu quero

“Só o amor e a arte tornam a existência tolerável”
(William Somerset Maugham)

Bomba de amor, por Renato Oliveira 

Conservo poucas certezas, 
mesmo que manifeste criterioso afeto 
por algumas verdades
E o fato de que a arte ilumina a vida, 
é uma das sentenças mais truísticas
 Da arte, a que mais prezo não é somente a que se manifesta
de forma tangível, mas impreterivelmente
a que habita na abstração
Por tanto, a arte ilimita a vida e a vida não há de limitar a arte
 Aquela que se encontra escassa, 
e por isso, mais valiosa que o impressionismo de Monet 
também mais pacífico que as harmônicas de Bach
porém com mais minúcias que as palavras de Machado
É um tipo de arte que deve ser verbalizada,
embora seja imprescindível de ser vivenciada.
 Nos debruçamos e residimos onde está o nosso coração
O meu residirá na plenitude
enquanto a perfeição deste sentimento
for a única obra que eu julgar necessária
Me direciono em favor da arte que considero, 
E quanto ao amor?... 
É a arte que eu quero!


A arte que eu quero - Eliziane Dias