05/01/2018

Em-Ponderando


          Um copo com água lhe foi entregue. Estava à sua frente, depositado na mesa. Segurava um pedaço de papel em uma das mãos, que servia para abarcar as lágrimas que caíam enquanto relatava diversas violências que sofreu, quando sofreu, onde sofreu e quem as fez sofrer.

          Com a escuta atenta, disfarçando a expressão tensa, eu teria que saber qual o tipo de violência. Se psicológica, sexual, moral, física ou patrimonial. Pelo relato prestado, foram todas. É nosso dever especificar o tipo de agressão e, como tenho “sorte”, em meu primeiro atendimento no estágio de psicologia em um local que atende mulheres vítimas de violência doméstica, tinha mesmo que ser alguém muito sofrido.

          Dentre muitas consequências da violência, estão pesadelos constantes durante a noite e uma reação fisiológica que constrange a vítima por se desencadear toda vez que seu cérebro percebe que ela está em perigo, mesmo que o agressor esteja a quilômetros de distância. Qualquer traço fisionômico semelhante, já provoca nela uma sensação nauseante.

          A vida que vivia, não era dela, estava em posse de seu companheiro que de forma bem hostil, a utilizou como quis, determinando ao seu modo como ela deveria comportar-se e principalmente, onde ela não deveria ir. Como se fosse possível alguém apreender e enclausurar a volição alheia.

         Olhando para o papel em suas mãos, percebo que ele se desfaz a cada palavra por ela proferida. Ela o esfrega, o reduz em pequenos pedaços, o esfarela...

          Olho para aquela cena enquanto escuto várias outras situações constrangedoras a que foi submetida, percebendo que ela faz ao papel, o que a ela foi feito.

          "Eu posso beber água?" – perguntou.

          “Você não precisa me pedir permissão para beber um copo de água que é seu” – respondi.

          Mais lágrimas caíram de seu rosto ao se tocar sobre o peso de submissão e nulidade que sua vida havia se tornado. 

          Corri os olhos sobre a mesa à procura de um objeto. Pego um peso de papel com uma bela flor no topo e digo: “Se eu o coloco aqui no centro desta mesa e saímos da sala, ele ainda estará aqui quando retornarmos. Ele não tem vida, nem vontade própria, não pode se locomover sem que eu ou qualquer outra pessoa o tire daqui.”

          Novas lágrimas, para um drama antigo...

          Novos embargos...

          Novas situações relatadas...

          Novas intervenções realizadas e...

          Depois de tudo, um novo olhar! 

          Uma pausa longa no choro e nos tremores de suas mãos.

          Para depois de vários instantes, um sorriso invadir-lhe a face, compreensão e empatia encherem os semblantes e ambas as expressões se tornarem leves.

          E como um objeto que, ao cair no chão devido à gravidade, provoca um ruído estrondoso, sua consciência se refaz de forma súbita e o turbilhão de expectativas que se deu naquele espaço foi ensurdecedor.

          Então, terminado o acolhimento, ouvi várias promessas de retorno, recebo um sorriso, um abraço e um agradecimento. Mas fui eu quem agradeceu mesmo de forma silenciosa, por testemunhar algo poderoso. Pois, pela força que seus olhos expressavam, eu imaginava que mais uma fortaleza se levantava e as consequências de suas ações ao erguer-se, poderiam ser bem mais avassaladoras. Porque quando alguém quebrado busca energia para se restabelecer, é quase impossível que forças externas, a paralisem novamente.

          E logo depois de terminado o atendimento, ponderei e percebi que descobri na prática o que o significado de emponderar elucida. Que é encarregar, confiar a alguém, dar poder, atribuir a alguém ou a si mesmo... Ou seja, não permitir que alguém anule sua liberdade de tomar decisões sobre sua própria vida.

          A não concessão de qualquer tipo de violência é algo muito novo para uma mulher e fisicamente ela já estava livre de toda opressão, mas cada agressão ainda a aprisionavam em dores violentas.

          Há muitos anos atrás, meu sonho era lidar com esse tipo de situação e eu jamais imaginei que pudesse ser tão difícil, tanto o durante, como o depois do atendimento.

          Pois agora, entendo que não sei exatamente se estava certa quando pude olhar para ela há alguns meses atrás e julgar ter encontrado nela força para que ela mesma comande sua própria vida e tome suas próprias decisões. Mas não posso dizer também que eu estava errada, porque talvez tenha partido dela mesma, a decisão de não mais me procurar.

21/12/2017

Bloqueio

        
Foto meramente Ilustrativa. Fonte: Freepik

               Voltava do treino quando recebi a mensagem da Lúcia. Achei tão apelativa... Na época, a achava a pessoa mais estranha do mundo. Por dentro, principalmente. Me irritava o fato dela ser tão sentimental.
         Olhei sua fotografia de perfil e fixando os olhos em sua cicatriz no pescoço, pensei que ela poderia ter tirado de um ângulo melhor. Lembrei-me do acidente e de tê-la ajudado no momento em que ela mesma classificou como o pior de sua vida.
         Depois deste fato, ela passou a chamar-me de anjo. Pensava que era por incapacidade dela em pensar em um apelido mais depreciativo. Era a única pessoa que me via dessa forma, apesar de eu jamais permitir que alguém me conhecesse a fundo.
         Se ela soubesse que eu era o oposto do anjo que ela imaginava que eu fosse, iria ser difícil de tê-la por perto e, eu não podia me dar ao luxo... Os poucos contatos que eu conservava, eram reservas para quando eu precisasse de alguns favores.
         Enfim... Lúcia, Maya e eu havíamos nos reunido no mesmo bar que tínhamos frequentado há muitos anos, desde a época em que trabalhávamos juntos.
         Lúcia como sempre insuportavelmente sensível, repetia todo o tempo o quanto era bom estarmos ali e o quanto aquele momento era raro.
         Maya contava que havia sido demitida da empresa em que era escrava, digo, em que trabalhava como arquivista.
         – É melhor ter paz do que ter dinheiro – falou Lúcia tentando confortar Maya de forma piegas, como sempre fazia, no intuito de fazê-la sentir-se melhor por estar longe do estresse que era seu trabalho, ainda que tivesse problemas financeiros.
         – Você não tem paz se o dinheiro lhe falta – balbuciei mais para mim mesmo. Elas ouviram. Não responderam. Concordaram comigo, só não admitiram.
         Alguns longos segundos de silêncio foram quebrados por Maya que continuou relatando as perdas de sua vida e, dessa vez, falava do término de um relacionamento. Eu apenas balançava a cabeça bebendo a cerveja, fingindo ouvir. Nada disse.
         Lucia que despejou mais uma pérola:
         – Isso era um relacionamento abusivo.
         – Não exagera! – respondeu Maya e em seguida, para se livrar dos conselhos de Lúcia, perguntou sobre minha vida amorosa.
         – Igual como sempre – respondi.
         – Como igual?
         – Inexistente! Minha vida sexual está bem ativa, obrigado! – riram.
         Lucia olhou ao redor e como se julgasse mais feliz do que eu, Maya e o restante das pessoas do local, quase subindo na mesa, falou mais alto que a música que tocava:
         – Já eu me caso em maio.
         – Com o advogado? – tentando demonstrar desinteresse para que ela aprendesse que aquilo não era uma notícia que mudaria nossas vidas, perguntei olhando por cima dos ombros afim de pedir ao garçom que nos servia, uma porção de veneno, digo, de fritas. Já Maya, simulava um ataque do coração.
         Dez minutos depois de uma história enfadonha e clichê que ela contava como se fosse um romance digno de um Oscar, ela deu um embrulho para mim e outro para Maya dizendo que foi por isso que marcou o encontro com nós dois àquele dia.
         Abrimos. Era uma garrafa de vinho para cada. Em um rótulo personalizado, meu nome na garrafa entregue a min e o nome da Maya na dela, seguido de um pedido para sermos seus padrinhos de casamento.
         Bom, se antes Maya estava simulando um ataque do coração, depois desse momento ela parecia agonizar: Deu um grito agudo, pulou da cadeira e ficou balançando as mãos sorrindo de boca aberta, interpretando se emocionar, olhando para Lúcia que repetiu exatamente as mesmas atitudes.
         Eu nunca tinha recebido um pedido como esses. Pouca coisa se sabia sobre mim, mas o fato de que eu não era muito dado a casamentos, era completamente perceptível.
         Sorri e disse que seria um prazer.
         Eu odiei tanto a minha resposta e aquele pedido, que meu desejo maior era quebrar aquela garrafa em minha própria cabeça.
         Ela abraçou a mim e Maya ao mesmo tempo com braços gigantes e eu não sei exatamente o que se sucedeu depois, mas certamente eu devo ter julgado tudo muito chato e por isso apaguei da minha memória.
         Senti tanta pena da Lúcia, que assim que ela me olhou sorrindo, se despedindo, não consegui sorrir de volta porque tinha uma certeza muito firme de que aquele sorriso se apagaria dali a alguns meses ou com um pouco de sorte, dali a alguns anos. E aquele sorriso não podia desaparecer já que era uma das poucas coisas realmente verdadeiras nesse mundo. Eu tinha convicção de que todas as pessoas casadas eram infelizes. E realmente aquele foi o último sorriso que eu testemunhei dela, minha última lembrança. Depois daquele dia eu nunca mais a veria.
         Mandei uma mensagem pedindo perdão por ter de viajar a trabalho no dia 2 de maio, data do seu casamento. Ela não sabia que naquela época eu estava assim como Maya, desempregado.
         Nem eu, na época, sabia porquê mentia. Lúcia deve ter ficado chateada, a foto do perfil dela sumira junto com a sua insistência em nossa amizade.
         Depois de tanto tempo lembrando e relembrando esse fato, finalmente assumo que toda a minha resistência, foi pela questão de que é difícil ser padrinho de um casamento, quando bem lá no fundo, se quer ser o noivo.        

14/12/2017

Saiba o que é Mitomania e confira a dica do filme: Um Contratempo

Título original: Contratiempo
Gênero: Drama / Romance Policial
Direção / Roteiro: Oriol Paulo
Lançamento: Jan / 2017
Elenco Principal: Mario Casas, Bárbara Lennie, Ana Wagener, José Coronado.



            Não é de hoje que o cinema espanhol vem crescendo em qualidade e “Um contratempo” é a prova disso.
         É um filme inteligente, cheio de suspense e reviravolta, que possui uma história intrigante, cheia de mistério com uma narrativa pautada por situações hipotéticas.
         O filme nos lembra que as atitudes que um pai e uma mãe tomam para fazer justiça por um filho, podem não ter limites, bem como as atitudes que um homem influente é capaz de tomar para salvar sua própria pele, seu nome, sua empresa e sua família.
         Mario Casas interpreta Adrian, um jovem empresário de sucesso, rico e que tem um caso extraconjugal com a fotógrafa Laura, interpretada pela atriz Bárbara Lennie.
         Voltando de um encontro, eles se acidentam e é então que toda a história acontece. É uma história que surpreende nos detalhes.
         A atriz Ana Wagener, que interpreta a advogada, é a peça chave para desvendar tudo o que realmente aconteceu no momento do acidente. É uma mulher firme, que desempenhou um papel muito forte e central no longa.


        O fato do personagem principal mentir descaradamente, me fez querer relacionar o personagem Adrian, com o transtorno da mentira patológica (mitomania).
         O personagem, não tem essa patologia, afinal, ele só mente para se livrar de uma condenação iminente, porque ele foi responsável pela ocorrência de um acidente e, depois dele, uma série de crimes com omissão de socorro e ocultação de cadáver, inclusive. E as mentiras inventadas por ele, foram para encobrir uma série de outras mentiras anteriores. E é importante ressaltar que nem todo mentiroso é um mitomaníaco.  
         A mitomania é o transtorno que faz com que a pessoa minta de forma compulsiva, é caracterizada por ideação fantasiosa de uma história ou de um personagem. Os sujeitos contam frequentemente histórias inverídicas com o objetivo de ganhar a auto-valorização.
         Normalmente são pessoas que se gabam por se dizerem ser ricas, terem autoridade, fama, entre outras coisas, mas quando são pegas mentindo, ficam até agressivas e como consequência, contam novas mentiras.
         Os mitomaníacos mentem por gostarem de ser o centro das atenções e por isso exageram no relato de suas histórias, inventando fatos que não aconteceram. Geralmente são indivíduos manipuladores, podendo também ser inseguros, mentindo justamente para sentirem-se mais valorizados e estimados.
         O mitomaníaco se vale de um discurso crível e plausível, motivado por questões internas, não constituindo em seus relatos, elementos utópicos e irreais. Um mitomaníaco jamais vai dizer que viu um lobisomem, o papai Noel, ou algo do tipo.
         A mitomania tem diferentes causas, quando não há um quadro de um transtorno maior como a bipolaridade, por exemplo, sua causa pode ser uma maneira do sujeito sentir-se mais seguro socialmente ou por não querer revelar como ele realmente é, com seus erros e falhas, com suas fraquezas e vulnerabilidades.
         Neste caso, o tratamento é feito exclusivamente com terapia. Onde o terapeuta investiga questões relativas à autoestima e eventos traumáticos na vida da pessoa. 



E então, você gostou de saber sobre mentira patológica (mitomania)? Ficou interessado(a) no filme “Um contratempo? Conhece algum mitomaníaco? Qual outro filme que você poderia relacionar com a mitomania? Conta pra MISS.

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22/09/2017

Reificação

       


Recentemente vi a propaganda de um site de relacionamentos em que no slogan tinha a silhueta de uma mulher colocando um homem dentro de um carrinho. Quando fui ler a descrição, dizia o seguinte: “O aplicativo de relacionamento mais divertido que você já viu.”
Nesse aplicativo, há um cardápio criteriosamente pensado para atender todos os gostos: Musculosos, barbudos, rastafári, black power, mauricinhos, tatuados... E estas especificações eram chamadas de catálogos.
Parece engraçado, mas na verdade é ridículo! Os termos utilizados no aplicativo como “produto, carrinho, adoção, catálogos, saudão, loja, embalagem, prateleira, lista de compras...” para mim são repulsivos e inaceitáveis quando se trata de seres humanos.
A palavra reificação dentre alguns outros significados, é o ato de transformar em coisa, é objetivar; representar o ser humano como objeto físico sem suas individualidades; transformar o homem em coisa, em objeto de consumo. Esse aplicativo eleva a coisificação do homem a um nível extremo. 
A explicação que a administradora do aplicativo deu-me quando comuniquei meu incômodo foi a seguinte: “Esses termos usados no app são utilizados exatamente de forma irônica, mostrando como seria a sociedade se a gente trocasse os papeis na hora da paquera! Nosso objetivo não é objetificar os caras, mas mostrar que as mulheres têm o poder de escolha, têm os mesmos direitos.”
Sei, não! Retribuir a forma grotesca de como as mulheres, às vezes são tratadas, não é bom sinal. Aliás, essa tentativa de igualdade para mim é dispensável, pois, quem não se incomoda em comprar o outro, é porque não se incomoda em se colocar à venda.
Assim como roupas, sapatos, bolsas, objetos, livros... Estamos sujeitos a avaliações como se fôssemos coisa, como se fôssemos objeto. Qualquer outro aplicativo de relacionamento pode não usar esses conceitos de mercado, mas tem funções semelhantes. No entanto, eles existem porque nos acostumamos a nos escondermos atrás da tela, pois, esta facilita a comunicação e o descarte, já que poucas pessoas aprenderam a lidar com os seus próprios sentimentos e os sentimentos dos outros. E também esses aplicativos servem para possibilitar a discriminação do que se almeja em relação a um parceiro somente pelas características físicas e nem sempre pelas características de sua personalidade.
A sociedade é levada a consumir e transformou o homem em objeto de consumo. O que você faz com um produto? Usa conforme a sua vontade e depois que ele não lhe serve mais, você o descarta!
Essa descartabilidade humana se tratando do mundo virtual ou não, trouxe um empobrecimento de nossas relações afetivas, nossa forma de nos relacionarmos com o outro está tão banal que fica difícil de estabelecer vínculos, pois com a facilidade que estabelecemos os laços, também o desfazemos e, não criar vínculos, pode acarretar conflitos psicológicos, uma vez que é na relação com o outro que nos construímos que nos desenvolvemos e que existimos.

30/08/2017

Resenha do livro: "Diário de uma Paixão" e sua relação com a Biblioterapia

Título do livro: Diário de uma paixão
Título original: The notebook
Autor: Nicholas Sparks
Gênero: Romance / Drama
Editora: Novo Conceito
Páginas: 223






“Quando conseguiu vencer o nó que tinha se formado em sua garganta ele sussurrou: – Você é a resposta para as minhas orações. Você é uma canção, um sonho, um murmúrio e não sei como consegui viver sem você durante tanto tempo.” p.138


Nicholas Sparks é rico em minúcias. Recheia suas histórias com muitos detalhes e isso é bom e ruim ao mesmo tempo. Ruim por tornar a leitura cansativa e bom porque a torna mais completa.
Diário de uma paixão é um livro que possui uma história semelhante a muitas outras, mas contada de uma forma especial. Todas as cenas são impecavelmente bem descritas.
Noah e Allie se apaixonaram durante a adolescência e mesmo após serem obrigados a se afastarem um do outro, ambos não esqueceram da paixão que haviam vivido e quando se encontram novamente, muito tempo depois, Allie está noiva de Lon.


“...Tinha se apaixonado uma vez, uma única vez, muito tempo atrás, isso o mudara para sempre. O amor perfeito faz isso com as pessoas, e aquele tinha sido perfeito.” p.24


Noah é um homem que mantinha uma vida humilde em Nova Berna. Sensível, gostava de poesia, de música, de animais, de admirar a natureza... Era um homem bonito tanto por dentro quanto por fora, que amou uma única mulher em toda sua vida.
Allie, a quem era destinado o amor de Noah, era uma mulher bem à frente de seu tempo, que tinha um talento incrível para a pintura.
Já Lon, o noivo de Allie que é o empecilho para ambos reviverem o romance, é o tipo perfeito dos livros de romance atuais. O típico moço rico, super bem sucedido, que não quer se envolver sério com ninguém até que acha uma pessoa diferente de muitas outras mulheres que conheceu e decide viver com ela para a vida toda. Lon, sem dúvida é um partidão e perceber essas características me fez ver o quanto a escrita de Nickolas é diferenciada, porque Lon não cai no estereótipo dos romances atuais. 





O filme também é muito emocionante, muito bem produzido, tem uma fotografia incrível, luzes e cores muito bem trabalhadas. Os atores foram muito bem escolhidos, mas não emociona tanto quanto a escrita de Nickolas e tem informações bem diferentes da história do livro.


Noah lê para Allie



Os anos passam e Noah passa a desenvolver uma atividade muito bacana, que é a leitura de histórias e poesias para outros idosos da casa de repouso. Essa questão trabalhada na história me fez lembrar da biblioterapia.
A biblioterapia é um benefício terapêutico proporcionado pela leitura.
É uma atividade que pode ser realizada por psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais ou bibliotecários com formação terapêutica para restabelecer ou prevenir transtornos emocionais.
A biblioterapia geralmente é utilizada em hospitais, em pacientes que precisam ficar muito tempo internados e assim a leitura funciona como um momento de descontração para alívio dos efeitos emocionais da hospitalização.


“Parece que somente os velhos conseguem ficar sentados desse jeito, um ao lado do outro, sem nada a dizer, e ainda sim se sentirem contentes. Os jovens, irrequietos e impacientes, têm sempre de quebrar o silêncio. É um desperdício, porque o silêncio é puro [...] só quem se sente confortável ao lado de outra pessoa pode ficar sentado sem falar. Esse é o grande paradoxo.” p. 190


Enquanto lia "Diário de uma Paixão" muitas vezes desejei que as problemáticas vivenciadas pelos protagonistas, poderiam não acontecer com muitas outras pessoas na vida real. Principalmente a que ocorre no final do livro, pois é profundamente triste.
Eu chorei de verdade, sorri, me surpreendi, fiquei com o coração apertado... Por tanto, é uma leitura que vale à pena, porque um bom livro tem que mexer com as nossas emoções, não é?

01/08/2017

Vamos filosofar? Livro "Caixa de Pássaros" #resenha

Título Original: Bird Box
Editora: Intrínseca
Autor: Josh Malerman
Páginas: 268
Ano: 2015

"Viver sem filosofar é o que se chama ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir." (René Descartes)


Nesta narrativa, enxergar trazia destruição e morte por causa de umas criaturas que quando eram vistas, faziam com que pessoas enlouquecessem matando quem estivesse por perto e logo em seguida se matasse.
Angústia é minha principal sensação ao ler Caixa de Pássaros. Os capítulos alternam entre passado e presente, o que fez a sensação ser ainda mais intensa.
Apesar de tratar-se de uma obra fictícia, o que aprendi com a história, pode ser útil para nossa realidade.

Jardim Botânico, RJ




Vendas, pouca luz, isolamento, medo, é o que se pode perceber de forma frequente em Caixa de Pássaros.
Mesmo não estando neste mundo distópico do livro, há muitas pessoas que vivem assim, só que diferente desta história, elas podem e devem enxergar, podem sair das sombras, retirar as vendas, mas não querem ou não sabem que podem.
Há uma frase que diz que abrir os olhos, pode ser a coisa mais dolorosa que podemos fazer.
Pode ser doloroso, mas não é tão enlouquecedor como no filme e é o melhor que temos a realizar diante de qualquer questão.
Também tem uma música que se chama “Abri os olhos” composta e interpretada pela cantora Sandy que em um dos trechos ela relata bem o que a frase acima quer dizer: 

Abri os olhos
Não consigo mais fechar
Assisto em silêncio
Até o que eu não quero enxergar
Não sei afastar
A dor de saber...
Enquanto eu penso
Tanto, entendo
O que é mais fácil
Não pensar
O que era certo
Eu aprendi
A sempre questionar

Não sabia que a música da Sandy era assim tão filosófica. rs
Abrir os olhos nesse contexto mais filosófico, significa ir em busca da verdade.
Filosofar é basicamente a reflexão de modo crítico sobre todas as coisas. O conhecimento abre nossos olhos.
A importância do filosofar é questionar e por isso, refletir e ponderar sobre tudo aquilo que nos chega como informação, como verdade. E isso inclui também a crítica sobre nossos próprios pensamentos, crenças, ideais políticos, religiosos, valores, comportamento, relações...
René Descartes, o mesmo autor da epígrafe desta resenha, diz que nossas certezas só são realmente nossas, se um dia elas tiverem sido colocadas em dúvida. Quando duvido, reflito e se reflito, penso. Se penso, logo existo!


“Que tipo de homem se acovarda quando o fim do mundo chega? Quando seus irmãos estão se matando, quando as ruas residenciais dos Estados Unidos estão infestadas de assassinatos... Que tipo de homem se esconderia atrás de cobertores e vendas? A resposta é a MAIORIA dos homens. Disseram a eles que poderiam enlouquecer. Então eles enlouquecem.” p. 190


Nesse livro específico e em muitos outros que abordam o terror psicológico, o medo é algo muito frequente. Sabendo que mesmo tendo a função de preservar a nossa vida, o medo em excesso muitas vezes nos paralisa, ressalto a coragem da Malorie, a personagem principal, que foi em busca de uma nova vida literalmente no escuro. Driblando seus medos e incertezas.
Malorie, não acomodou-se em uma situação caótica, mas agiu apesar de todo sofrimento e de toda dor tanto física, quanto emocional que já havia sentido.
Enfim... Muitas vezes em nossa realidade, o presente e o futuro, o crescimento, o desenvolvimento, são atravancados por uma série de fatores que nos dificultam a enfrentar o novo. Quantas vezes deixa-se de realizar alguma coisa por medo do que vai ser encontrado à frente?
Malorie é uma personagem determinada, corajosa, e mesmo tendo sido criada para uma história literária completamente diferente das que aprecio ler, ela ganhou meu coração por ser tão determinada, corajosa, e resiliente. Mais ainda por saber que quem a interpretará na versão do filme é a atriz Sandra Bullock.
Enfim, o que pude relacionar com o livro, é o que aprendi com a vida: Ser ousado, enfrentar os medos, não se acovardar, ser determinado, questionar, refletir...

“O homem é a criatura que ele teme” p. 210

Nossas ameaças são reais. Existem pessoas que alimentam nosso medo, nossa ignorância, a melhor maneira de lutar contra, é retirando as vendas e abrindo os olhos.
Enfim, o final não é esclarecedor, embora a maneira como o autor explica o título do livro através dos olhos de Malorie é surpreendente. Se você gosta do gênero, irá gostar do livro.

10/07/2017

Amnésia

Este conto foi criado à partir do desafio imagem/palavra do grupo: Café com Blog. A palavra recebida foi: LEMBRANÇAS. Além da palavra recebida, a reportagem do Programam Fantástico sobre o roubo dos queijos também foi inspiradora. 

Fonte: Grassroots Gourmet














         “Preciso escrever” pediu quase implorando
Mas não teve jeito, minha vontade sempre prevalecia.
No entanto, tivemos que retornar assim que chegamos ao restaurante. Um vendaval muito forte fazia com que algumas pessoas que insistiam estar ali, jantassem forçosamente à luz de velas. Eu não quis ficar. 
Ele me abraçou na mesma hora que chacoalhou o guarda-chuva para o ar e ele se abriu. Fomos em direção ao carro e seguimos para casa debaixo de uma chuva forte.
Senti-me culpada por ter insistido. Porém, ele não reclamou, não fez cara feia. Raramente demonstrava estar chateado com algo, principalmente comigo. Simplesmente assim que chegamos, se pôs em frente ao notebook para escrever. Eu invejava tanta criatividade. 
Alguns ossos do meu corpo haviam sido reconstituídos por ele. Havia sido cirurgião. Eu sentia fortes dores de cabeça e os remédios que tomava, eram por ele administrados religiosamente. Ele nunca se afastava de mim, mantínhamos uma vida solitária em Serra da Saudade. Uma cidadezinha de Minas Gerais com menos de mil habitantes.
Era um homem demasiadamente bom. Havia sido doutrinada a amá-lo e não havia um único dia da minha vida que eu não o amasse com tanta intensidade. 
Ele dedicava-se a escrever. Alguns livros eram para fins científicos, assinados pelo seu verdadeiro nome. Outros levavam pseudônimos famosos, alguns deles femininos.
Eu odiava ler! Mas me esforçava em sentar e conhecer seus textos lendo-os de forma muito investigativa. Como se pudesse compreender como ele possuía uma imaginação tão fértil.
Mas a história de quando nos conhecemos era o meu conto favorito. Achava tão surpreendente quanto intrigante. Ele contava da seguinte forma: 

Passávamos uns dias em La Fattoria dei Monaci, uma espécie de grande fazenda que ficava próxima ao caseifício produtor de parmigianno-regianno, localizado na província de Modena, mais precisamente na Emília-Romanha, Itália. Você viajava com sua irmã e eu com um grupo de amigos da faculdade.
No início de uma bela noite, no céu as estrelas repousavam enquanto eu me movia deixando meu corpo leve ser comandado por meus pés, eles seguiam instintivamente o caminho já previamente traçado pelo destino. Admirando o manto brilhante lá no alto, eu distraído, seguia sem perceber que uma das estrelas estava bem próxima. 
Assim que a encontrei, tive a certeza de que nenhuma outra visão no mundo me seria tão plena. A estrela estava estendida na grama, envolta por um tecido fino, com uma fenda na parte de baixo, que deixava à mostra a maior parte de seu formato, uma de suas mãos enrolavam uma mecha dos seus próprios cachos.
Perguntei se podia fazer-lhe companhia. Descobri que você também era brasileira. Conversamos sobre as músicas que gostávamos de ouvir. Nossos gostos eram bem parecidos. Você falava com muito entusiasmo de sua última viagem ao Norte do Brasil, de como era viver na cidade maravilhosa e me ouviu atentamente sobre Eneida, o poema épico do poeta Virgilio.
Meus amigos tinham ido à Thinkstock, a praça principal e sua irmã saíra com um rapaz que havia conhecido na viagem. Eles estavam desde cedo em Ravena.
Ficamos conversando por longas horas até perceber que o silêncio na fazenda havia ficado tão forte quanto o vento frio que cortava nossos rostos. Mas quando meu braço envolveu seus ombros e você se encolheu para aquecer-se em meu abraço, um barulho ensurdecedor vindo da cozinha do local encheu nossos ouvidos.
Fomos em direção a ele.
Gritamos.
Tudo estava escuro.
Até que surgiu à nossa frente um homem alto e careca, com um bigode enorme, trajando um dólmã branco, na cabeça um toque blanche e que se apresentou a nós como Enrico Montanari.
Ele nos cumprimentou cordialmente embora seu olhar trouxesse o questionamento sobre o motivo de nós dois estarmos ali àquela hora.
Nos convidando para adentrarmos à cozinha, ele disse que vinha do caseifício, e que além de maestri casari era também o dono da fazenda. O homem extremamente gordo e muito forte, trazia nas mãos duas fôrmas de queijo.
Olhamos aquilo muito admirados, pois, as fôrmas pesavam uns 40 quilos cada. Uma delas ele abriu na hora com um machado não tão limpo e nos ofereceu abrindo um vinho, comendo do queijo com tanta rapidez, que era como se não fosse comer nunca mais na vida.
Em seguida colocou o restante do queijo em uma sacola, e pôs a sacola junto com outras 3 ou 4 fôrmas de queijo parmigiano-reggiano em um carrinho. Pediu para que nós o esperássemos ali que nos levaria ao local onde os queijos ficavam guardados. 
Tamanha era a rapidez do homem no consumo do queijo, que ele se ausentou deixando grossos pedaços dele no chão.
Eu recolhi um pedaço da embalagem da faixa de marcação e percebi que a peça que o Sr. Montanari estava a consumir, já tinha uns sete anos de fabricação. Por isso, era valiosíssima.
Esperamos um bom tempo até que ele voltasse, estávamos desejosos de conhecer a produção.
Até que, chegou uma senhora assustada nos perguntando o que estávamos fazendo ali.
Quando ela viu os pedaços de queijo recortados e comidos espalhados pelo chão, ela começou a gritar desesperadamente e nós explicamos que estávamos ali junto com o Sr. Enrico Montanari, o dono da fazenda.
Assim que ouviu esse nome, o semblante da velha deformou-se em uma expressão espantada, pôs a mão no coração e desmaiou.
Antes ela havia tocado um botão preso à parede da cozinha, fazendo com que os seguranças aparecessem ao toque desse botão que fez soar uma campanhinha e, tendo sido chamado a polícia, fomos levados para a delegacia.
Lá soubemos que o Sr. Montanari era o ex-marido da Dona Fátima, o herdeiro de La Fattoria dei Monaci e que havia falecido há mais de quinze anos.
Só fomos liberados porque Dona Fátima acreditou em nós e suspendeu a investigação dando a certeza de que era o espírito do marido que não havia abandonado sua fazenda. Cético, o delegado arquivou o caso meio a contragosto, não sabendo se ria da situação ou se ficava furioso.
Embora, anos mais tarde soubemos que o funcionário que era sim um mestre dos queijos, foi o autor dos roubos naquele dia. Porque a aparição do tal espírito não se sucedeu só naquele dia. Uma forma de parmiggiano-reggiano, vale uns 500 euros. É um dos queijos mais caros do mundo, ainda fabricado quase da mesma maneira que há milênios atrás.
A partir do que passamos naquela noite em Modena, decidimos que não podíamos viver separados, e passamos a viajar juntos: Anatólia, Savran, Bruges, Kalgoorlie, Kelibia... Nosso amor se fortaleceu, nós nos casamos e fomos morar juntos no Sul do nosso Brasil.

Uma outra história, Abílio contava mais breve que a primeira, com os olhos distantes e marejados, parecia muito dolorosa a ele essa lembrança:

Sabe meu amor, como ninguém neste mundo tem o direito de ser feliz como éramos, o mesmo destino que nos uniu de forma tão louca, também nos deu um obstáculo para ser superado.
Havia uma época em que eu trabalhava muito no hospital e você se sentia muito sozinha. Desejou visitar sua irmã que decidiu depois de um tempo, vir morar próximo a nós. 
Quando você me ligou informando que estava voltando para o nosso lar e que sua irmã te acompanharia no caminho de volta, pois iria passar alguns dias do feriado de carnaval conosco, foi aí que tudo aconteceu.
Vocês sofreram um grave acidente na BR-386, que culminou com a internação de ambas. Infelizmente sua irmã... 

Ele sempre embargava nessa parte. Era a hora em que contava que minha irmã havia morrido. Abílio classificava os duros anos que fiquei em coma, como os mais difíceis de sua vida, embora só via sentido na vida, porque vivia cuidando de mim.
O hospital havia se tornado o nosso lar e é por isso que ele se aposentou tão logo eu milagrosamente pude ter alta. 
Assim que abri os olhos, ao sair do coma, eu não lembrava de absolutamente nada. Era como se eu houvesse nascido naquele dia. Minha memória estava totalmente apagada. Nem meu nome eu lembrava. 
Abílio ressaltou que eu perdi os documentos quando o carro explodiu e que a minha sorte é que um motorista que passara na hora, retirou eu e minha irmã antes que o carro explodisse.
E ele se encarregou de nutrir minhas lembranças, tendo a missão de fazer eu me “reapaixonar” por ele. Me explicou sobre um passado que eu não recordava de jeito algum.
Reaprendi a andar, a vestir-me, a falar, a comer, a ler, a escrever...
Além de ter que me acostumar com as marcas que o acidente causou em meu corpo e em meu rosto, apesar da casa não possuir espelhos.
Um dia, pedi para ver algumas de minhas fotos para saber como era a minha antiga aparência e tentar talvez lembrar-me de algo. 
No entanto, fui informada de que havia descartado todos os vestígios do meu antigo rosto a fim de proteger-me. E eu achei mesmo que ele não poderia ter feito coisa melhor, embora nos contentássemos em nos vislumbrarmos um no outro.
Vez ou outra pedia a Abílio para me repetir as mesmas histórias ou dizer como haviam sido as viagens para as cidades que ele citava, e que eu não sabia nem a qual países elas pertenciam.
Sem nem sequer esquecer-se de um só ponto, ele contava tudo, fazendo qualquer um crer que possuía a mais absoluta certeza do que dizia.
Contudo, fazia uns 9 anos que eu havia recobrado a memória. Tinha voltado primeiro como um grão de areia e depois ganhado força estrondosa.
O nome dos meus pais, a minha primeira professora, a forma de como eu me comportava quando criança, a idade do meu primeiro beijo, o nome do cara que eu transei pela primeira vez, o motivo de eu ter quebrado a perna na adolescência, o motivo de meu comportamento arredio com as pessoas à minha volta, a educação regrada dada por meus pais... Tudo isso, segundo Abílio, eu havia contado a ele antes de ter perdido a memória. Mas eram fatos que ele inventava sem saber de que eu já lembrava o meu passado e que Abílio, não estava nele.
O fato de eu ter sofrido um acidente, perdido minha irmã e a memória, eram as únicas verdades que Abílio contava. Antes do acidente, eu nem o conhecia. A primeira vez que o vi, foi quando abri os olhos no hospital. Depois do coma.


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La fattoria dei Monaci = A fazenda do monge (Nome fictício)
Parmigiano-reggiano = Queijo parmesão original e muito valioso
Maestre casari = Mestre culinário (especialista no preparo dos queijos)
Caseifício ´= Lugar onde se faz queijo
Toque blanche = Chapeú de mestre cuca
Dolmã = Uniforme de chefe de cozinha